INDESEJADOS


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Eu  não sou política, e por certo que não sei liderar um país. Nunca conseguiria tomar todas aquelas decisões que se referem às economias, às "mordomias", e a todas as outras "ias" do país, mas de uma coisa tenho a certeza: eu seria capaz de tomar decisões um pouco mais humanas.

Na passada segunda-feira (15) a TVI passou mais uma das suas fantásticas reportagens, onde apresentaram pessoas que fugiram dos seus países, que deixaram as suas casas e alguns até família para trás, para que não tivessem que sobreviver todos os dias no meio da terrível guerra que tomou conta dos seus países, mas acabaram por chegar aqui, à Europa, onde continuam a ter que sobreviver todos os dias, no meio de gente que não os quer e que não os aceita. Gente que não percebe que eles também são gente. Isso entristesse-me. Vivemos num mundo em que todas as culturas se misturam, em que todas as pessoas se deviam aceitar, mas em vez disso, caminhamos sobre um planeta que, embora tão antigo, ainda carrega racismo e preconceito, um planeta em que as pessoas são excluídas pela cor da sua pele, pela religião que praticam, ou até pelo país onde nasceram.

E eu não entendo. Eu vejo pessoas a queixarem-se na televisão, na internet, mas olho à minha volta e não entendo. E parte de mim fica feliz que eu não entenda. Eu nunca fui racista, e lamento que ao dizer preto, japonês ou turco, possa afetar alguém, mas acho que são formas bem mais diretas e menos ofensivas do que dizer negro, chinês ("porque são todos iguais ") ou "o senhor que vem da Turquia". E sei que no meio disto tudo, do que disse e do que ainda me falta dizer, vai haver alguém a comentar "preto não se diz, diz-se negro, eles não são pretos". E nós não somos brancos, mas ninguém anda por aí a dizer para não nos chamarem de brancos, pois não? Já falei até deste assunto com "pessoas de cor" (se assim as quiserem chamar), e elas mesmas já me disseram que preferem a palavra preto a negro, porque negro é só alguém a tentar ser demasiado simpático e com um tom demasiado falso. Mas e se, em vez disso, fossemos apenas pessoas? Afinal de contas, não é isso que somos todos? Somos os Portugueses, Europeus, Africanos, Americanos e sim, até os pobres desgraçados que atravessaram fronteiras a pé e mares em barcos de plástico.

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Se eu pensava que a questão dos refugiados na Europa tinha levado um bom caminho e estava quase tratada, a reportagem de André Carvalho Ramos veio-me mostrar muito do que as notícias não chegam a mostrar, e que muitas das pessoas que perderam tudo o que tinham agora pouco mais têm. Se não menos. Alguns líderes governamentais colocaram as pessoas a viver em locais deprimentes e sem condições, e outros deixaram-nas a dormir na rua, com promessas desfeitas de os levarem onde queriam. E tantos que queriam vir para Portugal. Tantos que podiam vir para Portugal. Se o governo pudesse simplesmente dizer que sim…

Isto enerva-me. Eu não sei se é uma questão de racismo (que, novamente, não entendo; conheço pessoas de várias raças, nacionalidades e culturas - a Universidade é todo um novo mundo - e não consigo ver as diferenças que certas pessoas tanto falam) ou de pura maldade, mas enquanto o governo tinha a possibilidade de receber cerca de 4 mil refugiados (pessoas que tinham passados momentos traumáticos, mulheres que foram violadas, filhos que tiveram que assistir, indivíduos que perderam toda a sua família, crianças que ficaram sozinhas), ficou-se por metade, o que, tendo em conta as condições que muitas destas pessoas estão a viver, é simplesmente desumano.

Se Portugal tem capacidade para acolher mais pessoas, então porque raio não o está a fazer?

Estou farta que adiem decisões, que mantenham as vidas destas pessoas paradas e que as façam perder anos. Algumas das pessoas apresentadas na reportagem tinham até tudo pronto aqui, à sua espera. Tinham amigos, tinham casa, emprego,documentos, um lugar numa universidade, tudo planeado e a única coisa que o governo Português tinha que fazer era dizer sim, podem vir para o nosso país, e eles tratavam de tudo o resto, com ajuda dos seus amigos e alguns até de familiares; mas em vez disso continuam sem dar uma resposta, e enquanto estas pessoas esperam, desesperam.

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Obviamente que não espero nada com esta publicação, até porque, infelizmente, duvido que esta situação se vá resolver tão depressa. É apenas um desabafo,algo que tinha entalado no meu coração e que precisava que as pessoas soubessem mais falassem mais, fizessem mais, e espero um dia poder ajudar estas pessoas, como gostaria que me ajudassem a mim. O mundo evoluiu muito em termos económicos, tecnológicos, e até sociais, mas ainda falta a muitos a habilidade de ajudar, nem que seja porque um dia eles mesmos possam vir a precisar. Infelizmente, continuamos assim.

E, já agora, que em 2018 seja diferente.



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1 comentários

  1. Que post maravilhoso, cheio de verdade e empatia! Eu também não entendo como pode ser tão complicado ajudar os outros, poxa, é algo que devia ser do nosso instinto, sabe? Não entendo quando foi que nos tornamos tão egoístas, pensando só no próprio umbigo e isso me deixa triste de verdade. Meu coração dói de saber a situação dessas pessoas e o retrocesso das decisões que os governos vêm tomando... O que nos resta é tentar ajudar do jeito que a gente pode, por mais que seja pouco ou quase nada :/
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

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